Junho/2026 – Psicologia / Trauma
Trauma e Memória
"A memória não é não é concreta, não é definitiva e não é reproduzível.Ao contrário, é mais efêmera, sempre mutante na forma e no significado".
Baseado no trabalho de Peter Levine

A memória é uma função mental que tem importância cada vez maior no processo psicoterapêutico. Em especial, compreender o papel das memórias traumáticas nos comportamentos disfuncionais é fundamental para o tratamento adequado dos pacientes que convivem com os efeitos dos traumas vivenciados.
O estudo das memórias traumáticas tem uma longa e respeitável história na psicologia e na psiquiatria. Remonta pelo menos à Paris dos anos 1870, quando Jean Martin Charcot, pai da neurologia, iniciou seus estudos sobre o o que causava paralisias, movimentos bruscos, desmaios, colapsos repentinos, riso frenético e choro dramático nos pacientes histéricos internados nas alas do Hospital Salpêtriere. Charcot e seus alunos começaram a entender, aos poucos, que esses movimentos e posturas estranhos eram os imprints físicos do trauma.
Em 1889, Pierre Janet, aluno de Charcot, escreveu o primeiro livro sobre o que hoje chamamos de Estresse Pós-Traumático. Seu livro, Automatismo Psicológico, argumentou que o trauma se mantém na memória processual, em ações e reações automáticas, sensações e atitudes. Assim, o trauma se repete e se reatua na forma de sensações viscerais (ansiedade e pânico), movimentos corporais ou imagens visuais (pesadelos e flashbacks). Janet trouxe a questão da memória para o primeiro plano no tratamento trauma.
Um acontecimento só se torna um trauma quando emoções avassaladoras interferem no processamento apropriado de uma lembrança.
Este informe traz recortes, adições, edições e comentários, sobre o trabalho de Peter Levine, publicado em seu livro Trauma e Memória.
No prefácio do livro, Bessel van der Kolk, neurocientista e professor de psiquiatria da Universidade de Medicina de Boston, nos diz que:

Boa leitura!
A tirania do passado

A experiência clínica nos mostra que as pessoas têm sido atormentadas por lembranças – memórias traumáticas - que as enchem de medo e horror, por sentimentos de impotência, raiva, ódio e vingança e por uma assoladora sensação de perda irreparável. Tanto na literatura antiga como nas tragédias épicas de gregos, sumérios e egípcios e em centenas de livros atuais sobre trauma, noticiários noturnos e confissões de celebridades, o trauma esteve e continua estando no epicentro da experiência humana.
Dentre os incidentes que podem gerar traumas, citamos os mais observados: observados: guerras, assaltos, assédios, abusos, acidentes, procedimento médicos invasivos, desastres naturais e ferimentos graves ou a morte súbita de uma pessoa querida. Todos geram reações intensas no organismo e podem alterar o equilíbrio biológico, psicológico e social a tal ponto que a lembrança deles pode macular e dominar todas as outras experiências, influenciando a percepção do evento presente no “aqui e agora”. A resultante tirania do passado interfere na capacidade de concentração real em situações novas e desconhecidas.
A ilusão da memória

“Memória é uma seleção de imagens: algumas fugazes, outras impressas no cérebro de modo indelével. Cada imagem é como um fio ... e todos os fios se entrelaçam para compor uma tapeçaria de trama intrincada. E a tapeçaria conta uma história. A história é o nosso passado ... Como outros, antes de mim, tenho o dom da visão. Mas a verdade muda de cor de acordo com a luz. E amanhã pode ser mais claro do que ontem. “
Kasi Lemmons, Amores perdidos
Aristóteles acreditava que os humanos nasciam como uma tábula rasa – um papel em branco – e que éramos o produto de uma vida gravada numa série de lembranças, assim como se faz em uma impressão em cera. No entanto, a memória não é isso; devemos aceitar a contragosto que ela não é concreta, definitiva e reproduzível, como a gravação de um vídeo, que pode ser recuperada a qualquer momento. Ao contrário, é mais efêmera, sempre mutante na forma e no significado. Não é um fenômeno singular, a construção fixa cimentada para sempre numa fundação de pedras. Está mais para um frágil castelo de cartas posto sobre as areias movediças do tempo, à mercê de interpretação e fabulação.
De fato, a memória é uma reconstrução contínua, mais parecida com os elétrons erráticos e imprevisíveis do princípio da incerteza de Heinsenberg.
Assim como o próprio ato de observar os elétrons altera sua posição, ou o seu “momentum”, também a intriga e a trama da memória se entrelaçam para produzir um tecido macio cujo contorno e tonalidade se modificam conforme o movimento da luz e da sombra ao longo do dia e das estações.
Talvez nosso estado emocional do momento seja o principal fator para determinarmos qual é o acontecimento específico e como nos lembramos dele. Os humores, as emoções e as sensações somáticas vigentes influenciam de modo profundo o que “recordamos”. Imagens e pensamentos lembrados que surgem na consciência são convocados e selecionados de modo inconsciente para corresponder ao nosso estado emocional do momento.
Nossos humores e sensações presentes desempenham um papel fundamental no modo como recordamos determinado acontecimento – eles estruturam como nos relacionamos com essas “lembranças” em dado momento e também como lidamos com elas e as reconstruímos de uma nova maneira.
Memórias são o alicerce da identidade pessoal

As memórias formam o próprio alicerce da identidade pessoal e ajudam a definir o que significa ser humano.
Embora não sejam em absoluto precisas ou permanentes, as memórias são uma bússola que nos guia em novas situações. Ajudam-nos a montar o contexto das experiências que surgem para que possamos planejar os próximos passos com confiança e, ao mesmo tempo, elaborar histórias coerentes sobre a trajetória da própria vida.
É por meio das memórias que encontramos nosso caminho no mundo.
A memória, quando reduzida à sua função mais vital, está associada à buscarmos um futuro mais seguro, na medida em que colabora no processo de fazer escolhas seletivas dos registros do passado e construir com base naquilo que foi efetivo, sem repetir aquelas respostas que foram danosas ou prejudiciais. Em suma, ela assegura um futuro influenciado pela história do indivíduo, mas não restrito a ela em demasia.
Por meio da memória, num processo contínuo de comparar semelhanças e diferenças, períodos de ameaça e períodos de segurança e satisfação, assim como importantes realizações e fracassos, selecionamos essas lembranças e depois as reorganizamos para moldar o presente e as nossas escolhas. Dessa maneira, visamos criar um futuro mais maleável, gratificante e benéfico do que o passado. Como na música de Vince Gill, cuja letra traduzimos neste informe de forma livre.
Ainda acredito em você e eu
Gill Vince

Todos querem uma parte do meu tempo
E eu ainda coloco você no fim da fila
Ter te causado dor e sofrimento, ver você aos prantos
Isso parte o meu coração
Me dê a chance e eu vou fazer diferente
Eu ainda acredito em você
Acredito no amor eterno, tão forte e verdadeiro
Baby, eu ainda acredito em você e eu
Em qualquer lugar ao longo caminho
Acho que perdi a noção
Apenas pensava em mim, nunca olhando para trás
Por todas as vezes que machuquei você
Peço desculpas depois de tanto tempo
Me dê uma chance para provar
Que nada vale para mim nada pena sem você
Eu ainda acredito em você
Acredito no amor eterno, forte e verdadeiro
Baby, eu ainda acredito em você e eu
Memória Traumática

Ao contrário das lembranças “comuns” – boas ou ruins – que são mutáveis e se alteram de modo dinâmico com o passar do tempo, as memórias traumáticas são fixas e estáticas. São imprints das experiências avassaladoras do passado, das impressões profundas esculpidas no cérebro, no corpo e na psiquê de quem as viveu. São marcas duras e congeladas que não cedem às mudanças nem se atualizam de imediato com as experiências e vivências atuais.
Em nítido contraste com lembranças gratificantes ou mesmo incômodas, que em geral podem ser formadas e revisitadas como narrativas coerentes, as “memórias traumáticas” costumam surgir como estilhaços de sensações, emoções, imagens, cheiros, sabores, pensamentos incipientes e indigestos.
Esses fragmentos confusos não podem ser relembrados como uma narrativa em si, mas são perpetuamente “reproduzidos” e revividos como intromissões desconexas e incoerentes ou sintomas físicos. Atormentam e asfixiam a nossa energia vital, restringindo de modo dramático a nossa capacidade de viver no aqui e agora.
Pessoas traumatizadas têm a vida estagnada até conseguir lidar de algum modo com essas intrusões, assimilá-las e enfim compor narrativas coerentes que possibilitem que as pessoas possam se reconciliar com elas e repousar, reduzindo assim a frequência em que entram em estado de alerta. Essa completude restaura a continuidade entre passado e futuro e incita uma motivada perseverança, um otimismo realista e um movimento para frente na vida.
E nas sessões de psicoterapia ...

Apesar da aparentemente ilimitada predileção humana por infligir sofrimento e trauma nos outros, somos também capazes de sobreviver, adaptar-nos e, no final, transformar as experiências traumáticas.
Estar consciente das sensações internas, dos sentimentos primordiais, permite acessar a experiência direta do próprio corpo vivo numa escala que vai do prazer à dor, sentimentos que se originam nos níveis mais profundos do tronco cerebral, não no córtex [não na consciência].
Com base no desenvolvimento da ciência da memória, consideramos que o entendimento empírico da memória, como uma entidade fixa é incorreto.
Quando relembramos uma experiência, descobrimos que essas lembranças estão em contínuo fluxo, mudando em contexto e estrutura ao longo da vida -para melhor ou para pior.
Ao analisar os sintomas aparentemente contraditórios, os cacos e fragmentos presentes nas narrativas, os sinais e síndromes exibidos por pessoas traumatizadas, eles revelam pistas que podem ser usadas para reativar o processo de cura.
Para compreender esses sintomas, precisamos avaliar o que acontece no corpo quando alguém está paralisado pelo medo.
Vários desses sintomas podem ser entendidos como representantes das partes descorporificadas da experiência – sensações físicas rudimentares que oprimiram essas pessoas no passado.
De modo simbólico, o tratamento do trauma consiste em recompor essas sensações desconexas, persuadindo os pacientes com gentileza, a começarem a sentir e a tolerar as sensações que até então lhes eram insuportáveis.
Esta reconstrução da memória traumática permite ao paciente ressignificar o evento traumático, atualizando a memória pré-existente. A nova memória traz sensações toleráveis. Gradualmente, monstro que vive no corpo traumatizado deixa de ser aterrorizante e pode ser assim enfrentado. contido e possivelmente dominado.
Referência bibliográfica
Trauma e Memória
Cérebro e Corpo em busca do Passado Vivo
Levine, Peter A.; tradução Ivana Portell Hoch; 1a. Ed.; Summus; 2023
O Despertar do Tigre - Curando o Trauma
Peter A Levine & Ann Frederick; Edi. Summus; 1999
Existem formas suaves e prazerosas de tratar o trauma.
Informe Julho/2025
"o que crianças traumatizadas podem nos ensinar sobre perda, amor e cura"
Informe Outubro/2023
O Caso Bá: Libertação do Trauma de Abusos Sexuais sofridos na Infância e Puberdade
Apresentação no III Congresso Latino-Americano de Psicoterapia Corporal.
Informe Maio/2022
Exercícios Corporais para Liberação de Traumas e Tensões - TRE
"É no corpo que está registrada sensorialmente a experiência traumática".
Informe Fevereiro/2020