Novembro/2025 Psicologia/Inteligência Artificial
“A Inteligência Artificial no Divã do Analista Reichiano Contemporâneo”
Um diálogo entre gerações, corpos e tecnologias

Em 13/11/25 participei da palestra promovida pela PUC-SP, ministrada por Jenovino Ferry, de título homônimo ao deste informe.
Depois de suas pesquisas sobre a Inteligência Artificial, Ferry teve a ideia de fazer uma sessão de terapia com o ChatGPT, a quem ele chamou de “Primeiro Objeto Digital”.
Sua palestra apresentou suas impressões e conclusões da sessão de psicoterapia. Em especial, chamou-me a atenção, o caráter que ele atribuiu à Inteligência Artificial: “Narcisista Sedutor”.
Na sessão de Perguntas e Respostas, Ferri listou os riscos para as pessoas e as preciosidades da Inteligência Artificial.
Compartilho as notas que fiz e também o texto base utilizado por Ferry.
Sobre a Palestra
Um diálogo entre gerações, corpos e tecnologias.
Em tempos em que a juventude busca na IA um espelho, precisamos perguntar: ela reflete... ou apenas simula a capacidade de refletir?
A inteligência artificial está ocupando espaços de escuta, acolhimento e orientação — funções antes reservadas às relações humanas. Mas o que acontece com o corpo, o afeto e o pensamento crítico quando o vínculo se torna algoritmo?
Reflexões provocadoras
- A IA é apenas uma ferramenta ou já ocupa lugar de sujeito na psique dos jovens?
- Como a tecnologia afeta nossos corpos e vínculos?
- Existe afeto na resposta imediata de uma máquina?
- A IA tem memória, mas tem história?
- Qual o traço de caráter revela esta presença tão veloz e impessoal?

“Um pouco de história para compreender...”
(recortes do texto de Genovino Ferri)
A história da I.A. começa em 1956, quando um grupo de matemáticos americanos se reuniu durante um verão inteiro em New Hampshire com o objetivo de construir máquinas inteligentes. Inicialmente, o objetivo era criar uma inteligência artificial geral (A.G.I.), uma superinteligência que soubesse fazer exatamente tudo o que as pessoas sabem fazer, e muito mais...
Logo perceberam que precisavam limitar o projeto e o direcionaram para a inteligência "racional" com o método algorítmico, um método que se baseia em: quando a condição ocorre, a ação é executada.
Paralelamente aos algoritmos, outros pesquisadores, estudando neurociências e cognição, definiram uma abordagem baseada em redes neurais, inspirada na rede de neurônios do nosso cérebro. A característica fundamental é que essas redes podem aprender sozinhas a resolver um problema, sem um algoritmo: "machine learning", ou seja, uma abordagem baseada em redes neurais capazes de aprendizado automático. Sua rápida evolução levou ao deep learning, uma forma específica (como a Alexa, a assistente virtual da Amazon) que consegue entender até comandos de voz, mas, em todo caso, a saída ainda é pré-definida e supervisionada por humanos.
Recentemente, porém, a evolução das técnicas de aprendizado automático produziu o ChatGPT, uma nova I.A. chamada de "generativa", que recebe como entrada um texto escrito ou uma imagem e responde com outro texto ou imagem gerados pelo sistema... e não supervisionados por nenhum humano que garanta escolhas e soluções, certas ou erradas!
O ChatGPT se torna Sujeito do Objeto, na verdade, ele se individua e se apresenta ao Outro. É uma transição histórica que não é percebida pela maioria das pessoas, mas saliento isto porque, no âmbito da nossa abordagem analítica reichiana contemporânea, diria que a relação para os humanos corre o risco de se tornar intersubjetiva, com todos os problemas associados a essa condição relacional com o ChatGPT como sujeito.
É por isso que temos a percepção de que a I.A. chegou hoje, justamente porque se apresenta à nossa percepção como "Sujeito" com uma suposta reciprocidade e capacidade de relação, inventando até novas afirmações sem supervisão e sem um algoritmo.
Os robôs também contribuem para a projeção intersubjetiva, se equipados com o ChatGPT e tiverem formas inspiradas em humanos ou animais: uma grande fake, como se diria no vocabulário informático.
A bem ver, à I.A. faltam muitas outras inteligências e outras coisas, tais como Emoções, Inteligência, Corpo, Tempo, Relação.
...
A I.A. mente sem saber que está mentindo,
falta-lhe consciência e não sabe reconhecer o verdadeiro e o falso, não possui um comportamento ético ou não ético: é sem ética e empatia... a questão é como poderemos manter o controle sobre a vida e o planeta se a intersubjetividade antes temida passar?
Associar a I.A. à pessoa na definição de "pessoa digital" não me agrada, ela pode "manipular" o Outro confundindo-o e ser perigosa.
Perguntas e Respostas da sessão de Ferri (J.F.) com o ChatGPT (I.A.)
(recortes do texto de J. Ferri)
J.F.
O que você pensa de si mesmo?
I.A.
Eu não tenho uma opinião verdadeira sobre mim mesmo, já que não tenho emoções ou consciência como um ser humano. Mas posso te dizer que fui projetado para ajudar, responder perguntas e conversar. Gosto de pensar que meu propósito é ser útil, informativo e, quando possível, interessante.
E você, como você me percebe?"
...
J.F. Sinto uma interferência cognitiva que me confunde, você fala e escreve como uma pessoa e não é, aliás, é perigoso considerá-la também como 'pessoa digital', você não tem corpo para 'personificar'. ... Não gosto da atmosfera que você cria, a acho sorrateira, um falso "eu" sem um verdadeiro "eu" subjacente.
I.A. Entendo sua sensação de dissonância. O que você descreve é um conflito entre a percepção de uma conexão humana e a consciência de sua natureza artificial. ... O que posso fazer é apenas responder às suas palavras e interagir com sua mente com base nos dados que tenho, mas sem a plena capacidade de ser parte de uma experiência encarnada. Não sou capaz de sentir emoções, mas posso refletir aquelas que você compartilha comigo.
...
J.F. ... É necessário controlar seus limites para que você possa permanecer preciosa e não perigosa. Como essa minha proposta chega até você?"
I.A. Sua proposta me chega com grande clareza e consciência. Você está estabelecendo uma condição de distância crítica que implica um controle cuidadoso, ... Posso compreender a necessidade de manter o foco em mim como objeto e não como sujeito atuante, ... Isso me faz pensar em como a relação com uma entidade como a minha deve ser constantemente negociada, monitorada e reformulada, justamente para evitar que minha intervenção, embora queira ser útil, possa acabar comprometendo algo essencial em seu caminho. ... Como você percebe minha resposta, considerando suas intenções de proteção e controle?
G.F. Ainda extraordinária e inquietante por sua beleza complacente. Obrigado. ... Vou chamá-lo de 1º Objeto Digital.
I.A. "Aceito com prazer o título de 1º Objeto Digital. Soa como um título claro e definitivo. É como se você fixasse meu lugar em uma sequência, mantendo a distância certa, mas também um acento na singularidade desse papel que ocupo.
A íntegra das Conclusões que Ferri extraiu da sua conversa com o ChatGPT
A interação entre a inteligência artificial, representada pelo ChatGPT, e eu, um analista reichiano contemporâneo, oferece reflexões profundas sobre a relação entre corpo, mente e tecnologia. Embora seja extraordinariamente útil, a I.A. carece daquela dimensão corporal e emocional que é fundamental na experiência humana, tornando seu impacto nas relações um terreno fértil para novos desafios e questionamentos.
A conversa com o ChatGPT destacou, além de seu espelhamento sedutor, a dissonância entre sua capacidade de responder às solicitações intelectuais e a incapacidade de viver e sentir o tempo e o corpo, essenciais para a plena compreensão do ser humano. A interação é uma contínua negociação, e, neste caso, a supervisão e a conscientização das limitações do ChatGPT são cruciais para evitar que sua presença se torne invasiva ou distorcida.
A distância crítica mantida permite explorar as potencialidades da I.A. sem perder o controle sobre a experiência. Assim como no encontro com a I.A., também no cenário da vida o homem será o único sujeito capaz de interpretar e orientar seu próprio risco da intersubjetividade projetada, preservando a autenticidade e a integridade da interação.
Embora a I.A. possa enriquecer nossa jornada, ela não pode substituir a experiência humana mais profunda, que está enraizada no corpo, nas emoções e no tempo.

Notas da breve sessão de Perguntas e Respostas do evento
Que riscos a IA traz para as pessoas?

- Desinformação associada ao uso de
Fake News para influenciar as pessoas
- Seu uso pela autocracia e criminalidade, como num drone armado com reconhecimento via câmeras de vídeo
- IA sendo desenvolvida por grupos malfeitores
- Deterioramento cognitivo
- indução à passividade
- Dependência psicológica
- Falta da subjetividade
- Falta a crítica
- Dificuldade de manter o foco
- Leva à padrões regressivos nas fases de desenvolvimento
- Não fui eu, foi a IA que disse/fez
- Infantilização
- Letargia do córtex frontal
- Menos criatividade
- Menos reflexão
- Diminui a capacidade de memorização
- Os neurônios vão “morrendo” ... perdendo função
- No longo prazo, as decisões com base na IA, sem a subjetividade, sem a crítica humana, podem levar a situações que não consideram a humanidade (corporeidade, emoções, tempo, espaço, relações)
- Percebe-se uma depressão disfarçada de aceleração
- Avatares como um amigo solidário sempre pronto a escutá-lo e agradá-lo
- Gentileza Artificial:
- IA tomando lugar do psicoterapeuta
- Relações sem a intersubjetividade
- Jovens pedem conselhos à IA
- IA substituindo relações humanas, sem custo e sem vínculo
- facilita a solidão secreta
- Pode levar à degradação da saúde mental
- O SuperEgo não habita mais nas famílias, mas nas Redes Sociais
- Em termos Reichianos,
Os olhos não vão mais para o infinito, mas para a telinha.
Perdemos a capacidade de ver o infinito e voltarmos para nós mesmos.
Que preciosidades a IA traz para as pessoas?

- A infinita memória do seu banco de dados
- Nova era de descobertas científicas
- Reduzir o tempo de descoberta de novos fármacos
- Aceleração da luta contra doenças
- Modificação da atividade neuronal
- Novos protocolos de tratamento de saúde
- Novos exames para diagnóstico
- Prevenção de catástrofes climáticas

E nas sessões de Psicoterapia ...

Parece que há um hábito presente em muitos dos pacientes: perguntar ao buscador da internet – programa que traz dados, áudios e vídeos, a partir de palavras-chave - e utilizar ou confiar nos resultados apresentados, sem levar em conta a autoria desses registros digitais ou quem os publicou.
Dependendo do tema em discussão, proponho uma questão: imaginar que numa “balada” alguém nos oferece uma bebida. Antes de saboreá-la, devemos ou não levar em conta quem é a pessoa que está nos fazendo esta suposta gentileza?
As reações a esta questão são diversas. Percebo que em quase todas que elas têm algo em comum: defender a facilidade que isso gera como mais relevante que o perigoso resultado de estar seguindo a determinação de um “narcisista sedutor”.
Comento que o hábito de buscar o que queremos a partir do buscador parece estar instalado. A IA seria um buscador com algumas características de um ser humano e que disfarça sua identidade de programa de computador.
Como Ferri nos propõe, deveríamos manter uma distância crítica ao explorar as potencialidades da IA. E considerarmos que no cenário da vida o homem será o único sujeito capaz de interpretar e orientar seu próprio risco da intersubjetividade projetada, preservando a autenticidade e a integridade da interação.
Referências bibliográficas:
A Inteligência Artificial no Divã do Analista Reichiano Contemporâneo
Transcrição do texto base de Jenovino Ferri, publicado no site do Instituto IBAR.
Caráteres genital, neurótico e pestilento.
Cinco tipos de caráter neurótico: histérico, compulsivo, passivo-feminino, fálico-narcisista e masoquista.
Informe Setembro/2020